Dois assuntos sempre me fascinaram, desde criança:
Segunda Guerra Mundial, em particular a batalha do Atlântico, e Tubarões!
Em 2006, em visita a uma feira de mergulho nos EUA, dei de cara com uma foto subaquática fantástica. Na realidade, uma montagem com mais de 200 fotos, compondo a imagem de um submarino alemão naufragado: o U-352. Nunca mais tirei aquela imagem da cabeça. Tinha que mergulhar lá! E para completar, o local era repleto de Tubarões Mangona (Carcharias Taurus) - grandes, com cara de mau e completamente inofensivos.
Durante alguns anos, fiquei estudando a história do U-352 e de diversas outras batalhas travadas nesta região especial do Oceano Atlântico. Cape Lookout, região compreendida pelas cidades de Beaufort, Atlantic Beach e Morehead, além de abrigar dezenas de naufrágios da Segunda Guerra e de fazer parte da programação de lançamentos de recifes artificiais, é também o local do naufrágio do Queen Anne’s Revenge, a nau capitânia do famigerado pirata Barba Negra. No início deste ano, surgiu a oportunidade de fazer uma viagem a trabalho e dar uma “esticadinha” até Morehead em agosto, justamente na melhor época do ano para mergulhar no Atlântico Norte, que é de julho a setembro. Foi aí então que decidi montar a Expedição Tiburón / XDivers U-352, para mergulhar e registrar o U-352 e os tubarões do “Cemitério do Atlântico Norte”, como é conhecida a região.

(Visão geral do U-352 - Clique na imagem para vê-la maior)
Além de mim, fizeram parte da expedição: Michel Medeiros - DIVECON SSI; João Tavares - Instrutor Tech TXR SSI e grande caverneiro; e Rodrigo Figueiredo - proprietário da Xdivers e responsável pelo espetacular registro fotográfico da viagem.
Para chegar a Morehead, tomamos um avião de Miami ao Aeroporto de Raleigh/Durham, onde alugamos um carro para cobrir a viagem de aproximadamente 3 horas até o litoral. Durham, por sinal, nos valeu uma super visita ao centro hiperbárico da DUKE UNIVERSITY e ao Headquarters da DAN Intl. Apenas visita... sem DD!!
Em Morehead, temos a operadora Olympus, hoje dirigida pelo Capitão Robert Purifoy, filho do responsável pela descoberta do U-352! A outra operadora local, a Discovery Diving, fica na cidade vizinha de Beaufort. Por questões logísticas, mergulhamos com a Discovery Diving.
Ambas operadoras contam com excelentes embarcações, adequadas ao mar duro e à longa navegação média para os mergulhos off-shore, de 25 a 30 milhas náuticas. Também contam com estações de recarga para Nitrox, extremamente recomendado para mergulhos na faixa dos 30 metros.
Spar e Indra
Nosso primeiro ponto foi o naufrágio do “Spar”, um quebra-gelo da guarda costeira aposentado, naufragado artificialmente no ano de 1997.
Apesar de ser um lançamento artificial relativamente recente, a quantidade de vida é absolutamente fora do comum! Uma completa cadeia alimentar com cardumes de Sardinha, Xaréu, Olho-de-Boi, Enxada, Barracuda e... muito Tubarão, muito mesmo! Eu diria mais de 30! Ao todo, fizemos 4 mergulhos no “Spar” e sempre contamos com a mesma situação: na parte mais rasa, na água quente e clara, ficavam de 4 a 5 tubarões. Eram os maiores do grupo, como que tomando conta da situação. Sobre o convés do “Spar”, na faixa dos 24 metros de profundidade, dezenas de tubarões, de diversos tamanhos, circundavam os mergulhadores sem nenhuma atitude agressiva, como se nós nem estivéssemos lá. Na parte mais funda, na areia, outros tantos, mais tímidos, se escondiam nas águas mais escuras e frias, devido à forte termoclina.
Terminamos o mergulho completamente extasiados! Os Tubarões já valeriam a viagem e o U-352 ainda estava por vir!!

À tarde, mergulhamos no naufrágio artificial do Indra, já na área in-shore. Apesar da baixa visibilidade, o Indra nos proporcionou excelentes penetrações e, novamente, muitos peixes. Muita vida mesmo!

U-352
Finalmente chegou o dia pelo qual eu esperava há 3 anos! Após uma navegação bastante dura e sem que o Capitão aliviasse ao cortar as ondas numa velocidade média de 20 nós, chegamos ao U-352. Ali estávamos nós, a 30 metros de um submarino alemão! Estava difícil de segurar a ansiedade.
Eu e o Rodrigo descemos na frente. Uma vez que o mergulho tem perfil quadrado e bem próximo do fundo, sabíamos que não teríamos muito tempo, mesmo com cilindros de 100 pés cúbicos e EAN 30.
Quando conseguimos distinguir a forma do Submarino, praticamente intacto, a emoção realmente foi grande. O cabo de descida estava na popa, amarrado ao eixo. O U-352 está levemente adernado sobre o boreste. Percorrendo o convés repleto de peixes, minha cabeça não parava de imaginar os detalhes do naufrágio (ver quadro em anexo). Esse não era um naufrágio comum. Da meia nau à proa, encontra-se a torreta, ainda com a base do periscópio e do snorkel, e a escotilha principal de entrada aberta. Seguindo um pouco mais à frente, avistamos a base do canhão de 88mm, jamais encontrado. Acredita-se que tenha sido arrancado pelas cargas de profundidade e que tenha tido o mesmo fim da metralhadora de 20mm, encontrada anos depois a 50 metros de distância do U-352. Atualmente, esta se encontra em exposição na Olympus Dive Center.
Seguindo em direção à proa, existe uma abertura retangular com nítidas marcas de penetração. No briefing de mergulho, não recebemos nenhuma instrução que proibisse a penetração e, como somos ambos treinados para tal, decidimos cautelosamente e respeitosamente entrar no U-352. O mergulho ficou ainda mais fascinante... Do ponto de entrada até a proa, a penetração estava completamente impedida por uma montanha de sedimento, mas em direção à popa, conseguimos avançar por mais dois compartimentos, passando claramente pela praça de comando.
Retornamos rapidamente ao ponto de entrada e saímos pela mesma abertura. Já do lado de fora, completamos o mergulho em direção à proa, passando por mais uma entrada por onde se carregavam os torpedos para, finalmente, chegar à proa, bastante desmantelada, mas com o imponente tubo de torpedo de bombordo facilmente identificável.
Repetimos praticamente o mesmo perfil no segundo mergulho.
Durante a descompressão, cercado por algumas Barracudas muito grandes, o filme das batalhas do Atlântico passava na minha cabeça... Eu só pensava em agradecer a possibilidade de mergulhar nessa parte da história da humanidade e em prestar os meus respeitos aos que dela participaram.
Para mim, este foi mais um sonho realizado, mais um mergulho fantástico. Voltaremos lá em 2010, com mais uma expedição Tiburón / XDivers, para nos aprofundarmos mais ainda nessa aventura que é mergulhar no “Cemitério do Atlântico Norte”, que ainda guarda grandes naufrágios, como o “Papoose” e o “Naeco”.
Para maiores informações acesse www.tiburononline.com.br
Ficha técnica do U-352:
Submarino Alemão classe VII-C
Comissionado em 28/08/1941
Participou de 2 missões sem obter sucesso.
Afundado pelo USCG Icarus, em 09 de Maio de 1942
O saldo da batalha: 13 tripulantes mortos e 33 prisioneiros resgatados pelo próprio Icarus, incluindo seu capitão, Hellmut Rathke.
Local: Costa da Carolina do Norte, N34° 13.682'/W76° 33.907'
Comprimento: 218 pés (aprox. 72 metros)
Profundidade máxima 34 metros, média 30 metros.
Dados do Relatório confidencial da U.S. Navy sobre o U-352 e seu afundamento:
Com a abertura dos arquivos confidencias da Segunda Guerra, tivemos acesso ao arquivo referente ao afundamento do U-352, documento oficial da US Navy.
Sobre a primeira missão:
Na primeira missão, ainda no cenário europeu de batalha, próximo à Islândia, seu primeiro ataque a um vapor foi interrompido pelo surgimento de 4 Corvetas inimigas.
Na segunda e fatal missão, partiu do porto francês de St. Nazaire e, após 3 semanas navegando para atravessar o Atlântico, chegou em águas norte-americanas em 2 de Maio.
Durante a sua última semana, o U-352 não fez nenhuma vítima, segundo declaração de seus tripulantes, e passou a maior parte do tempo se escondendo da intensa patrulha realizada pelos aviões costeiros, realizando diversos mergulhos de emergência para evitar ataques.
Nenhum tripulante afirmou ter visto a costa dos Estados Unidos, porém captaram fortes sinais de rádio, ouvindo Jazz.
O U-352 teria disparado 7 a 8 torpedos contra cargueiros, porém sem nenhum êxito. Seu próximo ataque seria o seu último, contra o USCG Icarus, um pequeno cruzador da guarda costeira dos Estados Unidos, com comprimento de 165 pés (aprox. 55 metros).
No dia 09 de Maio, o mar estava calmo e a visibilidade estava em torno de 9 milhas quando o USCG Icarus detectou através de seu sonar o U-352 a aproximadamente 110 metros de distância. Nada foi visto e, depois de 4 minutos, um torpedo explodiu a aproximadamente 220 metros da proa do USCG Icarus. Em manobra de ataque, o USCG Icarus lançou 5 cargas de profundidade em padrão de “diamante” e, em seguida, mais 3 em padrão “V”. Após ver muitas bolhas de ar, o capitão do Icarus, E. D. Howard, soltou mais uma carga de profundidade. Um minuto depois, às 17h09min, o U-352 apareceu na superfície num ângulo de 45 graus, com a popa para o fundo.
Imediatamente o USCG Icarus abriu fogo com seu canhão de 50mm e sua metralhadora de 30mm. Neste momento, o Icarus estava a aproximadamente 1100 metros de distância e era possível observar os tripulantes do U-352 abandonando a embarcação. O Icarus se reposicionou e abriu fogo com seu canhão de 3”. Dos 14 disparos, 6 acertaram em cheio o U-352 e um ricocheteou.
33 tripulantes abandonaram o navio de maneira bastante organizada, nadando para longe da nave, que afundou precisamente às 17h14min. O Icarus, então, a 330m de distância, cessou fogo e começou o resgate dos prisioneiros de guerra. Às 17h34min o Icarus lançou mais uma carga de profundidade e, em seguida, surgiu uma grande mancha de óleo e um forte odor de querosene.
Os sobreviventes foram encaminhados ao porto de Charleston, na Carolina do Sul, para futuros interrogatórios.
Fonte: “Post Mortems on Enemy Submarine”
Rua Visconde de Pirajá 550, sl 1113
Ipanema - Rio de Janeiro - Brasil - Mapa
(5521) 3902-6002 / (5521) 3681-1810
Horário de funcionamento: Segunda à sexta,
de 10h às 19h.
xdivers@xdivers.com.br